PERTURBAÇÃO DO ESPETRO DO AUTISMO: ESTRATÉGIAS PRÁTICAS PARA O DIA A DIA DAS FAMÍLIAS

Luana Constantino, Terapeuta Ocupacional

Receber um diagnóstico de Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) traz muitas perguntas: “E agora?”, “Será que estou a fazer o suficiente?”, “Será que estou a falhar em alguma coisa?”…

Todas estas dúvidas são legítimas. Não existem pais perfeitos, existem sim, pais que estão a aprender todos os dias e a dar o melhor de si. E quando falamos de crianças com PEA, esse processo de aprendizagem pode ser ainda mais desafiante. Mais importante do que respostas prontas, é oferecer ferramentas simples que façam sentido na rotina real da família.

Tornar o dia mais previsível

Na sua maioria, as crianças com PEA sentem-se mais seguras quando sabem o que vai acontecer. Quando a criança sabe o que esperar, diminui a ansiedade, e por consequente, diminuem também as crises. Algumas estratégias que podem ajudar neste aspeto:

  • Criar um quadro visual com a rotina diária;

  • Avisar com alguma antecedência antes das mudanças: “Daqui a 5 minutos vamos tomar banho”;

  • Utilizar sempre a mesma sequência para momentos como deitar ou sair de casa.

Olhar para o comportamento como uma forma de comunicação

Nem sempre é “birra”. Muitas vezes é dificuldade em comunicar, cansaço ou sobrecarga sensorial. Alterar a pergunta de “Porque é que se está a portar mal?” para “O que estará a tentar comunicar?” faz toda a diferença. Algumas perguntas que ajudam a perceber melhor a situação:

  • Está demasiado barulho?

  • A atividade é longa demais?

  • Será que houve alguma mudança inesperada?

  • Está com fome ou muito cansada?

Simplificar a comunicação

Por vezes, instruções demasiado longas podem ser uma barreira. Frases curtas, diretas e acompanhadas de gestos ou imagens tornam tudo mais claro. Em vez de: “Vai arrumar isso e vai lavar as mãos que o jantar está pronto.” — Tentar: “Vamos arrumar, lavar as mãos e sentar à mesa”.

Preparar momentos que habitualmente são mais complicados

Há alturas do dia que tendem a ser mais desafiantes: refeições, higiene, hora de dormir. Partilho algumas estratégias simples:

Nas refeições:

  • Evitar demasiadas distrações;

  • Introduzir novos alimentos ao lado de alimentos já aceites;

  • Não forçar – a exposição gradual funciona melhor do que a pressão.

Na higiene:

  • Evitar mudanças bruscas de pressão no chuveiro e testar a temperatura da água;

  • Na lavagem dos dentes, ir aumentando gradualmente o tempo de escovagem;

  • Permitir que a criança participe (segurar a esponja, utilizar a toalha).

Na hora de dormir:

  • Criar sempre a mesma sequência (banho – pijama – história – cama);

  • Reduzir os ecrãs antes da hora de deitar;

  • Manter o ambiente calmo e previsível.

 Reforçar o que corre bem

É fácil ficar preso ao que ainda não está a funcionar, contudo, não devemos esquecer que celebrar pequenas conquistas é fundamental. O reforço positivo consistente tem um impacto muito superior à crítica repetida. Em vez de focar apenas no que faltou fazer, reforçar:

  • “Arrumaste muito bem;”

  • “Tentaste sozinho, isso é importante;”

  • “Gostei da forma como esperaste.”

Cuidar de quem cuida

Pais cansados sentem mais dificuldade em manter a consistência, e isso é humano. A intervenção não acontece apenas na sala de terapia, acontece também em casa, todos os dias, e para isso, os pais têm de se sentir emocionalmente apoiados. É importante:

  • Pedir ajuda não é falhar, pelo contrário;

  • Fazer pausas não é egoísmo;

  • Não é necessário resolver tudo ao mesmo tempo

Cada criança com PEA é única. Não existem receitas universais. O que resulta com uma família pode não resultar com a outra. Contudo, quando os pais têm uma orientação clara, estratégias práticas e espaço para partilhar dúvidas, o caminho torna-se mais leve.

Pequenas mudanças, feitas com consciência têm um impacto enorme a longo prazo. E acima de tudo, nenhuma família está sozinha neste processo.

 
 

@terapiaaoquadrado

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