PORQUE É QUE ALGUNS ADULTOS ADORAM O CARNAVAL?
Inês Santos, Psicóloga
Uma leitura psicológica do prazer de se mascarar
Todos os anos, quando chega o Carnaval, vemos o mesmo fenómeno: enquanto algumas pessoas passam incólumes pela época, outras vivem o Carnaval com verdadeiro entusiasmo. Planeiam fatos, pensam personagens, maquilham-se, transformam o corpo e entram no jogo. Mas porquê? O que leva tantos adultos a gostarem tanto de se mascarar?
Do ponto de vista psicológico, o Carnaval é muito mais do que uma festa. É um espaço simbólico, emocional e relacional com várias funções importantes.
1. O Carnaval como espaço seguro para brincar
Na infância, brincar ao faz de conta é uma ferramenta essencial de desenvolvimento. Na vida adulta, essa dimensão lúdica tende a ficar reprimida pelas exigências sociais, profissionais e familiares.
O Carnaval funciona como uma licença social para brincar:
Fingir
Exagerar
Fantasiar
Ser ridículo sem julgamento
Psicologicamente, isto é profundamente regulador. Permite libertar tensão, aliviar stress e aceder a partes criativas do self que ficam muitas vezes adormecidas. Para muitos adultos, mascarar-se é recuperar algo que nunca deixou de ser necessário: o brincar.
2. Identidade, papéis e experimentação
Usamos muitos papéis no dia a dia: profissional, parental, social, conjugal. O Carnaval suspende temporariamente esses papéis e permite experimentar outros.
Ao escolher um fato, a pessoa pode estar a:
Explorar traços da sua personalidade
Dar espaço a desejos reprimidos
Brincar com opostos (o tímido torna-se extravagante, o sério torna-se cómico)
Este fenómeno chama-se experimentação identitária. Não significa confusão de identidade, mas sim flexibilidade psicológica — algo altamente saudável.
3. O prazer de “não ser eu”… por uns dias
Para algumas pessoas, o maior prazer do Carnaval é a sensação de anonimato:
“Hoje não sou eu”
“Ninguém espera nada de mim”
A máscara funciona como um escudo psicológico que reduz a autocensura e a ansiedade social. Permite comportamentos mais espontâneos, expressivos e livres.
Isto é particularmente positivo para pessoas que:
São muito autoexigentes
Vivem sob forte controlo emocional
Têm medo do julgamento externo
4. Corpo, expressão e liberdade emocional
Mascarar-se envolve o corpo: roupa, maquilhagem, movimento, presença. O Carnaval é uma experiência corporal e sensorial.
Do ponto de vista psicológico:
O corpo deixa de ser apenas funcional
Passa a ser expressivo
Torna-se meio de comunicação emocional
Esta libertação corporal está associada a prazer, vitalidade e sensação de pertença.
5. Conexão social e pertença
O Carnaval é um fenómeno coletivo. Mesmo quem se mascara “sozinho”, fá-lo dentro de uma cultura partilhada.
Gostar de Carnaval também pode significar:
Necessidade de ligação
Prazer em fazer parte de um grupo
Sentimento de pertença social
A partilha do riso e da brincadeira aproxima as pessoas.
Conclusão
Para além das dimensões emocionais e psicológicas, para muitas pessoas o Carnaval tem também um significado cultural profundo. É uma tradição herdada, vivida em família ou em comunidade, que atravessa gerações e cria um sentimento de continuidade e pertença.
Historicamente, o Carnaval sempre foi um espaço de satirização social: um tempo em que se pode exagerar, criticar, inverter papéis e dar opinião sem filtros. A máscara protege, mas também liberta. Permite dizer o que normalmente fica contido, rir do poder, das normas e até de nós próprios — com menor risco de julgamento.
Assim, gostar de Carnaval não é apenas gostar de festa ou de fantasia. Pode ser uma forma de expressão cultural, de posicionamento social e de participação simbólica num ritual coletivo onde, por uns dias, é permitido ser mais livre, mais crítico e mais autêntico.
Em muitos locais, esta vivência está bem expressa no ditado popular “é Carnaval, ninguém leva a mal”. Mais do que uma frase feita, funciona como um verdadeiro estado de espírito coletivo: uma autorização social para baixar filtros, exagerar, dizer e mostrar o que normalmente seria contido.
Ao mesmo tempo, essa liberdade acontece dentro de uma comunidade que protege. A regra implícita é clara — hoje podemos ser mais livres, mais ousados e mais espontâneos, porque estamos todos a jogar o mesmo jogo simbólico.
No fundo, o Carnaval continua a cumprir a sua função ancestral: criar um espaço onde o humano pode brincar, questionar e expressar-se — em conjunto.





