LUTAS DE FAZ DE CONTA: BRINCAR TAMBÉM É CRESCER

Joana Martinho, Psicóloga

Os combates “imaginários” ou lutas de faz de conta são uma forma de brincadeira espontânea que permite à criança explorar o corpo, os seus limites e as regras da interação social de forma simbólica e segura.

Apesar de, por vezes, serem confundidas com comportamentos agressivos, estas brincadeiras diferem da violência porque assentam na diversão mútua, no consentimento e no respeito.

Este tipo de brincadeira constitui um contexto privilegiado de aprendizagem, integrando o desenvolvimento motor, cognitivo e socioemocional. Através do contacto físico controlado, do ritmo das ações e da negociação de papéis — quem persegue, quem vence, quem perde e quando termina a brincadeira — as crianças desenvolvem competências fundamentais para o seu crescimento.

As “lutas de faz-de-conta” envolvem contacto físico, controlo emocional e motor, comunicação e sincronização social. Quando decorrem num ambiente seguro, tornam-se oportunidades valiosas para aprender a respeitar o outro, gerir emoções e resolver conflitos de forma adaptativa. A investigação demonstra que esta forma de brincar favorece a autorregulação emocional, reduz comportamentos agressivos e promove o autocontrolo, a empatia e a capacidade de interpretar pistas sociais na interação.

O papel do adulto é essencial neste processo, através da sua orientação e participação ativa, garantindo que existe respeito mútuo, reciprocidade e segurança. Sempre que um dos intervenientes deixa de se divertir, demonstra desconforto ou pede para parar, a brincadeira deve terminar, desta forma, as crianças aprendem que brincar implica também ouvir o outro, respeitar limites e cuidar da relação.

Entre os principais benefícios para a criança, deste tipo de interação, destacam-se:

  • Conhecer melhor o seu corpo, compreender as suas emoções: promovem a autoconsciência corporal e emocional, ajudando a criança a identificar o que sente e compreender as suas reações.  

  • Aprender a regular as suas emoções e comportamentos nas interações com os pares: controlar impulsos, gerir a frustração e manter o equilíbrio emocional durante a brincadeira.

  • Fortalecer as competências sociais: favorecem a cooperação, empatia, a comunicação, a resolução de problemas e a negociação de regras e limites com os pares.

  • Promover o bem-estar psicológico: redução dos níveis de cortisol (hormona associada ao stress) e aumento da ocitocina (hormona relacionada com o bem-estar, confiança e vínculo social).

Na infância, crescer também acontece a brincar. E, nas lutas de faz de conta, não se cultivam vencedores ou vencidos, cultivam-se crianças mais confiantes, empáticas, resilientes e capazes de transformar a energia do corpo em aprendizagem para a vida. Crescer também acontece entre abraços, gargalhadas e brincadeiras, que, embora pareçam lutas, são, acima de tudo, encontros.

 
 

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