QUANDO O VERÃO É DIFÍCIL: CRIANÇAS COM NECESSIDADES ESPECIAIS NAS FÉRIAS
Ana Filipa Lamelas, Psicóloga
Para muitas famílias, o verão é sinónimo de descanso, viagens, praia e tempo em conjunto. Mas, para algumas crianças, esta época pode trazer mais desafios do que tranquilidade.
Quando existem necessidades específicas — como perturbações do neurodesenvolvimento, dificuldades de regulação emocional, alterações sensoriais ou dificuldades na adaptação a mudanças — a quebra das rotinas habituais pode ser particularmente exigente.
A escola termina, os horários mudam, surgem viagens, pessoas diferentes, novos espaços e atividades inesperadas. Aquilo que para um adulto pode ser uma mudança agradável pode representar, para uma criança, uma grande quantidade de informação nova para processar.
“Mas são férias. Porque é que não está feliz?”
Esta é uma expectativa comum, mas importante de desconstruir. As férias não são necessariamente relaxantes para todas as crianças. Uma criança pode gostar de estar de férias e, ao mesmo tempo, sentir-se cansada, sobrecarregada ou desorganizada com tantas mudanças. Birras mais frequentes, maior irritabilidade, dificuldade em dormir, recusa de atividades ou necessidade de se afastar podem ser sinais de que a criança está a ter dificuldade em regular-se — e não simplesmente de que está “mal-comportada”. Antes de perguntar “Porque é que está a reagir assim?”, pode ser útil perguntar:
“O que é que mudou e de que apoio precisa neste momento?”
A rotina continua a ser importante
Mesmo durante as férias, alguma previsibilidade pode ajudar. Não é necessário manter os horários exatamente iguais aos da escola, mas podemos conservar alguns pontos de referência: hora aproximada de acordar e dormir, refeições, momentos de descanso e algumas atividades habituais.
Para algumas crianças, pode também ser útil antecipar o que vai acontecer através de um calendário simples, fotografias, desenhos ou uma sequência visual. A previsibilidade não retira espontaneidade às férias; pode dar à criança a segurança necessária para conseguir desfrutá-las.
Nem todas as atividades são para todas as crianças
Praia, festas, parques aquáticos, viagens longas ou restaurantes podem ser experiências divertidas, mas também podem envolver barulho, calor, multidões, cheiros, espera ou alterações inesperadas. Não é necessário evitar estas situações. Podemos, no entanto, pensar antecipadamente em formas de as tornar mais acessíveis.
Por exemplo:
escolher horários com menos pessoas;
fazer atividades mais curtas;
levar objetos familiares ou de conforto;
preparar a criança para aquilo que vai acontecer;
identificar um local tranquilo onde possa fazer uma pausa;
respeitar sinais de cansaço ou sobrecarga.
O objetivo não é impedir que a criança experiencie coisas novas, mas ajudá-la a fazê-lo dentro das suas possibilidades.
Dar espaço também é cuidar
Durante as férias, podemos sentir vontade de preencher todos os dias com atividades. No entanto, algumas crianças precisam de mais tempo para descansar, brincar livremente ou simplesmente não fazer nada. O descanso também é uma necessidade. Se a criança começa a demonstrar mais irritabilidade, isolamento, choro ou comportamentos que habitualmente não apresenta, pode ser importante reduzir os estímulos e dar-lhe tempo para recuperar.
E se as férias não correrem como planeado?
Nem todas as atividades vão correr bem. Pode haver uma viagem interrompida, uma ida à praia que termina mais cedo ou uma atividade que a criança simplesmente não consegue fazer naquele dia. E está tudo bem!
As férias não precisam de ser perfeitas para serem boas. Mais importante do que cumprir um determinado plano é observar a criança, ajustar expectativas e responder às suas necessidades. Cada criança vive as férias à sua maneira. Para algumas, o verão será cheio de aventuras; para outras, será sobretudo uma oportunidade para descansar num ambiente mais previsível e seguro. O mais importante é que exista espaço para ambas as experiências.
Porque férias não significam fazer tudo. Significam, também, poder estar, descansar, brincar e desfrutar — ao ritmo de cada criança.


