COMPREENDER OS CLUSTERS DA PERSONALIDADE: UMA LEITURA A PARTIR DO DSM-5

Inês Santos, Psicóloga

A personalidade é o conjunto de padrões estáveis de pensar, sentir e agir que nos tornam únicos. É aquilo que nos acompanha ao longo da vida e influencia a forma como nos relacionamos connosco próprios e com os outros.

O que são as perturbações da personalidade?

Por vezes, porém, esses padrões tornam-se inflexíveis e persistentes, dificultando a adaptação a diferentes contextos e causando sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou afetivo.

Quando isso acontece, podemos estar perante o que o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-5) designa por Perturbação da Personalidade.

A organização em clusters

O DSM-5 agrupa as perturbações da personalidade em três conjuntos, conhecidos como clusters, de acordo com semelhanças de expressão comportamental e emocional:

  • Cluster A – Padrões excêntricos ou distantes

  • Cluster B – Padrões dramáticos, emocionais ou erráticos

  • Cluster C – Padrões ansiosos ou temerosos

Estes grupos não pretendem rotular pessoas, mas ajudar profissionais e clientes a compreender padrões de funcionamento que podem beneficiar de intervenção terapêutica.

Cluster A – Padrões excêntricos ou distantes

Inclui:

  • Perturbação da Personalidade Paranóide

  • Perturbação da Personalidade Esquizóide

  • Perturbação da Personalidade Esquizotípica

As pessoas com traços deste grupo podem parecer reservadas, desconfiadas ou socialmente afastadas. Podem ter dificuldade em confiar nos outros, manter relações próximas ou interpretar de forma pouco realista as intenções alheias.

Em terapia, é essencial construir uma relação de confiança gradual, respeitando a necessidade de espaço e segurança da pessoa. A intervenção costuma focar-se em reconhecer padrões de pensamento rígidos, aumentar a tolerância à proximidade emocional e melhorar as competências relacionais.

Cluster B – Padrões dramáticos, emocionais ou erráticos

Inclui:

  • Perturbação da Personalidade Antissocial

  • Perturbação da Personalidade Borderline

  • Perturbação da Personalidade Histriónica

  • Perturbação da Personalidade Narcísica

Neste grupo, encontramos maior instabilidade emocional, impulsividade e dificuldades nas relações interpessoais. Podem existir sentimentos de vazio, medo intenso de rejeição, necessidade de atenção ou uma perceção inflacionada da própria importância.

O trabalho terapêutico com o Cluster B exige consistência, contenção e empatia, ajudando a pessoa a regular emoções intensas, reconhecer padrões interpessoais disfuncionais e desenvolver uma identidade mais estável. Abordagens como a Terapia Dialética Comportamental ou a Terapia Focada nas Emoções são frequentemente eficazes.

Cluster C – Padrões ansiosos ou temerosos

Inclui:

  • Perturbação da Personalidade Evitante

  • Perturbação da Personalidade Dependente

  • Perturbação da Personalidade Obsessivo-Compulsiva

As pessoas com este tipo de funcionamento tendem a apresentar preocupação excessiva com o julgamento dos outros, necessidade de aprovação ou rigidez na forma de agir e pensar. Podem sentir grande desconforto perante a incerteza e ter dificuldade em afirmar-se ou relaxar.

Em psicoterapia, o foco é reforçar a autoconfiança, promover autonomia, trabalhar o medo da rejeição e flexibilizar padrões rígidos de perfeccionismo e exigência. Intervenções de base cognitivo-comportamental e treino de assertividade são particularmente úteis.

Porque é importante compreender os clusters da personalidade?

Conhecer estes padrões ajuda a:

  • Identificar dificuldades centrais que sustentam o sofrimento psicológico;

  • Escolher estratégias terapêuticas adequadas ao tipo de funcionamento predominante;

  • Aumentar a literacia emocional e psicológica, tanto em clientes como em familiares;

  • Promover a empatia, substituindo o julgamento por compreensão.

Mais do que um rótulo, esta classificação é um mapa clínico, que orienta a intervenção e o crescimento pessoal. Muitas pessoas não preenchem critérios de uma perturbação, mas podem apresentar traços de personalidade que interferem na sua vida e que são totalmente passíveis de mudança através da terapia.

Uma nota final

O DSM-5 recorda que o diagnóstico e o tratamento das perturbações da personalidade devem ser realizados por profissionais qualificados, após uma avaliação clínica detalhada.

Cada pessoa é mais do que o seu padrão de funcionamento — é um ser em desenvolvimento, com potencial para compreender e transformar as suas formas de pensar, sentir e relacionar-se.

Na Terapia ao Quadrado, acreditamos que conhecer é o primeiro passo para mudar.
Se sente que algum destes temas lhe faz sentido, talvez seja o momento de explorar consigo mesmo o que o faz reagir, sentir ou relacionar-se de determinadas maneiras. A terapia pode ser o espaço seguro onde começa essa transformação.

Referência

American Psychiatric Association (2014). Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais: DSM-5. 5.ª Edição. Lisboa: Climepsi Editores.

 
 

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