SUICÍDIO NA ADOLESCÊNCIA: QUANDO O SOFRIMENTO PRECISA DE SER OUVIDO
Ana Filipa Lamelas, Psicóloga
Falar sobre suicídio na adolescência pode ser difícil. Para muitos pais, a ideia de que o seu filho possa estar a pensar na morte é assustadora.
Para outros, pode parecer impossível imaginar que um adolescente que aparentemente “tem tudo para estar bem” possa estar a viver um sofrimento tão intenso. Mas falar sobre suicídio é, precisamente, uma forma de prevenção.
O suicídio não é uma escolha entre “querer viver” e “querer morrer”, nem um sinal de fraqueza. É um fenómeno complexo, associado frequentemente a situações de sofrimento psicológico intenso e a múltiplos fatores individuais, familiares e sociais. A Ordem dos Psicólogos Portugueses destaca que os comportamentos suicidas constituem um importante problema de Saúde Pública e que a prevenção deve passar pela promoção da Saúde Psicológica, pela redução do estigma e pelo acesso atempado a cuidados especializados.
A adolescência pode ser uma fase de grande vulnerabilidade
A adolescência é marcada por mudanças profundas: no corpo, nas relações, na identidade, na autonomia e na forma como o jovem se relaciona consigo próprio e com os outros. A estas mudanças podem juntar-se dificuldades como problemas de Saúde Psicológica, conflitos familiares, experiências de rejeição ou violência, bullying, dificuldades escolares, perdas, isolamento ou outras situações que façam o adolescente sentir que não consegue lidar com aquilo que está a viver.
Importa, contudo, não procurar uma única causa.
O comportamento suicida resulta habitualmente da interação de vários fatores e não deve ser reduzido a um acontecimento específico. Nos adolescentes e jovens adultos, a existência de problemas de Saúde Psicológica e experiências de violência interpessoal estão entre os fatores de risco identificados pela OPP.
Que sinais devem preocupar os adultos?
Nem todos os adolescentes que apresentam sofrimento psicológico estão em risco de suicídio. Da mesma forma, um jovem em risco pode não apresentar sinais óbvios. Ainda assim, algumas mudanças merecem atenção, sobretudo quando são intensas, persistentes ou diferentes do funcionamento habitual do adolescente:
falar sobre morte, desaparecer, não querer continuar ou sentir que seria melhor não existir;
expressar sentimentos de desesperança, inutilidade ou de ser um “fardo” para os outros;
afastar-se subitamente da família, amigos ou atividades de que gostava;
apresentar alterações marcadas no sono, alimentação ou comportamento;
demonstrar um aumento significativo de irritabilidade, tristeza ou ansiedade;
apresentar uma queda acentuada no funcionamento escolar ou social;
despedir-se de pessoas de forma invulgar ou oferecer objetos importantes;
apresentar comportamentos de risco ou autolesivos;
procurar formas de se magoar ou de morrer.
Um sinal isolado não permite concluir que existe risco de suicídio. O mais importante é olhar para mudanças no comportamento, sofrimento emocional e contexto global do adolescente.
“Se eu perguntar, não vou estar a pôr ideias na cabeça dele?”
Esta é uma das preocupações mais frequentes dos pais. Perguntar diretamente sobre pensamentos suicidas não significa incentivar o suicídio. Pelo contrário, pode permitir que o adolescente verbalize algo que até então estava a viver sozinho. Perguntas simples podem abrir espaço para uma conversa:
“Tenho reparado que não tens parecido tu próprio. Como te tens sentido?”
“Alguma vez sentiste que não querias estar aqui ou que preferias morrer?”
“Já pensaste em magoar-te?”
Estas perguntas não precisam de ser feitas num tom de interrogatório. O objetivo não é obter rapidamente respostas, mas transmitir ao jovem que existe um adulto disponível para ouvir, sem julgamento.
O que fazer se o adolescente disser que está a pensar em morrer?
Antes de mais, levar a sério! Evitar frases como:
“Isso é só para chamar a atenção.”
“Tens uma vida tão boa, não tens motivos para estar assim.”
“Isso é uma fase.”
“Há pessoas com problemas muito maiores.”
“Não digas disparates.”
Mesmo quando são ditas com a intenção de tranquilizar, estas respostas podem aumentar o sentimento de incompreensão e isolamento. Em vez disso, podemos dizer:
“Ainda bem que me contaste.”
“Quero perceber o que estás a sentir.”
“Não tens de lidar com isto sozinho/a.”
“Vamos procurar ajuda juntos.”
Quando existe risco suicidário atual, uma tentativa recente ou ideação suicida grave, é necessária uma avaliação clínica adequada e uma resposta especializada. A própria OPP salienta que situações de risco suicidário exigem encaminhamento para serviços de saúde capazes de assegurar uma intervenção clínica adequada e integrada.
Prevenir também é criar espaço para falar
A prevenção do suicídio não começa apenas quando existe uma crise. Começa muito antes: na construção de relações em que crianças e adolescentes sabem que podem falar sobre aquilo que sentem; na promoção de competências socioemocionais; na redução do estigma associado à Saúde Psicológica; na existência de adultos atentos e disponíveis; e no acesso a apoio psicológico quando necessário.
A OPP destaca precisamente a importância dos contextos escolares na prevenção, incluindo a promoção de competências socioemocionais, a literacia em Saúde Psicológica, a identificação precoce de situações de risco e a articulação entre escola, família e serviços de saúde. Por isso, não precisamos de esperar que um adolescente esteja “no limite” para perguntar como está.
Às vezes, a prevenção começa numa pergunta tão simples como: “Como estás, mesmo?”
E, sobretudo, começa quando estamos preparados para ficar e ouvir a resposta. Se existe preocupação, procure ajuda
Se um adolescente manifesta pensamentos de morte ou suicídio, apresenta comportamentos autolesivos ou parece estar em sofrimento psicológico intenso, é importante procurar ajuda profissional. Em situações de perigo imediato, deve ser contactado o 112 ou procurada uma urgência hospitalar.
Pedir ajuda não é exagerar. É cuidar.
