ESPELHO MEU: O FOCO NO REFLEXO DO COMPORTAMENTO PARA EDUCAR
Hugo Marques, Psicólogo
No decorrer do desenvolvimento das capacidades cerebrais da criança, existe a predisposição para a imitação, captando e replicando as ações e emoções dos adultos de referência.
A partir dos primeiros meses de vida, os bebés imitam expressões faciais e sons. À medida que crescem, começam a replicar a forma como os pais lidam com emoções, como comunicam com os outros, como cuidam de si próprios e na resolução de problemas. Ao reagir com calma a um imprevisto, a criança recebe um "guião" de como gerir situações potenciadoras de desconforto e ansiedade. Se a reação for mais ansiogénica, essa passa a ser o padrão de comportamento aprendido. A este fenómeno chamamos de modelagem enquanto processo pelo qual as crianças aprendem comportamentos, atitudes e reações emocionais ao observar as figuras de referência na sua vida.
De que forma pode impactar a vida futura?
Um dos pilares da modelagem é a regulação emocional. Se a criança presenciar momentos de exaltação, a criança aprende que a essa é a resposta padrão para situações potenciadoras de desconforto. Se, por outro lado, conseguirmos pausar, respirar e nomear, poderemos estar a dar um guião para a autorregulação.
A modelagem também se aplica à forma como encara a responsabilidade e à resiliência. Quando os adultos de referência enfrentam desafios com persistência e admitem os seus erros sem excessiva autocrítica, ensinam que falhar faz parte do processo de aprendizagem. Admitir erros é um dos atos de modelagem mais profundos, pois ensina humildade, reparação de relações e responsabilidade.
No mundo digital de hoje, faz cada vez mais sentido falar da modelagem no uso da tecnologia. Mostra-se fundamental estar presente e manter contacto visual durante uma conversa, sem a interrupção constante das notificações, modelando o valor da conexão humana e da atenção plena.
O papel do adulto de referência
A modelagem na parentalidade exige autoconsciência. Não uma busca por perfeição, pois é um modelo irrealista e potenciador de ansiedade, mas sim mostrarmo-nos intencionais. Ao abraçarmos o nosso próprio crescimento pessoal, estamos automaticamente a oferecer às crianças o melhor guia possível para a vida. O exemplo não é apenas uma forma de ensinar, é a forma eficaz de transformar.





