ESCUTAR O QUE NÃO SE VÊ: CUIDAR DA SAÚDE PSICOLÓGICA DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Joana Martinho, Psicóloga

Estar saudável vai muito além daquilo que se vê.

A saúde exige um olhar inteiro sobre a pessoa, é um estado completo de bem-estar físico, mental e social, que permite à pessoa realizar as suas capacidades e potencial, lidar com as adversidades do dia-a-dia e contribuir ativamente para a comunidade.

Não podemos falar em saúde, sem reconhecer a parte integrante que a saúde psicológica representa, não há saúde sem saúde psicológica. Esta prende-se com a forma como pensamos, sentimos, avaliamos as situações, como nos relacionamos com os outros e tomamos decisões, a fim de dar resposta aos desafios do dia-a-dia. 

Convidamos à reflexão numa perspetiva de desenvolvimento, particularmente para o período da infância e adolescência, no qual tudo começa a florescer. Podemos considerar a analogia de uma casa, percecionando o ser humano adulto como a casa edificada. Nesta fase da vida podemos identificar que se começam a formar os alicerces que representam o sentido de identidade, incluindo as crenças e valores pessoais, sendo fundamental que esta construção seja amparada com pilares firmes, seguros e apoiantes (cuidadores, pais, familiares, amigos, professores).

Como se caracteriza a saúde psicológica na infância e adolescência?

As crianças e os adolescentes comunicam e expressam as suas necessidades e intenções de diferentes formas, que vão além das palavras, como por exemplo: na forma como brinca, adapta, pede ajuda, como lida com o erro ou como se sente consigo própria.

Não é “só uma fase”, ou “quando crescer passa”, há vozes que precisam de ser ouvidas e dores que precisam de ser acolhidas. Nem todo o sofrimento desaparece sozinho. É necessário criar espaço para o mundo interno da criança e do adolescente, reconhecendo que a expressão do que sentem é uma forma de comunicar necessidades e de pedir ajuda.

O que é considerado saudável e normativo é a existência de uma relação satisfatória com o próprio (construção de uma identidade e autoconceito positivos), com os outros (família, amigos, colegas, outros adultos) e com os diferentes contextos em que se insere (casa, escola, atividades).  Ao longo do crescimento, a criança desenvolve aprendizagens que lhe permitem responder aos desafios do meio com progressiva autonomia, no entanto, caso se confronte com exigências para as quais ainda não consegue responder e não dispõe de apoio adequado, pode constituir um fator de risco para o surgimento de um problema de saúde mental. Há dificuldades que são normativas, outras que exigem atenção.

Quando o sofrimento fala: sinais a monitorizar   

O sofrimento psicológico pode manifestar-se de forma indireta, sendo importante monitorizar a frequência, duração e intensidade dos possíveis sinais de alerta, entre os quais seguem alguns exemplos:

  • Tristeza persistente, apatia, irritabilidade, explosões emocionais intensas;

  • Comportamento de oposição, desafio, agressividade;

  • Isolamento social ou perda de interesse por atividades de que antes gostava;

  • Ansiedade excessiva, medos intensos ou preocupação constante;

  • Queixas físicas recorrentes sem causa médica evidente;

  • Alterações no sono ou no apetite;

  • Dificuldade de concentração ou quebra acentuada no desempenho escolar;

  • Baixa autoestima, autocrítica excessiva ou sentimentos de inadequação;

  • Desmotivação significativa, desesperança ou comportamentos de risco (adolescentes). 

Desafios que acrescem do contexto de vida atual

As crianças e os adolescentes de hoje crescem num contexto muito diferente, marcado pelo ritmo acelerado, a exposição constante à informação, a pressão académica, as redes sociais, a dificuldade em tolerar o aborrecimento, criando um terreno exigente para o desenvolvimento saudável. E com as agendas preenchidas, existe a carência de espaço interno para sentir, elaborar e integrar o que vivem.

Por sua vez, muitos adolescentes, vivem expostos a comparações constantes, a ideais irrealistas e a uma necessidade de validação externa, o que pode refletir-se na sua autoestima, sentido de pertença e construção identitária. Deste modo, é fundamental olhar para o contexto que envolve a criança ou o jovem, como um possível elemento na prevenção.

O papel do adulto e figuras de referência: presença, suporte, sensitividade

Nem sempre vamos saber exatamente o que dizer. Nem sempre vamos interpretar tudo da melhor forma. Nem sempre vamos conseguir evitar o sofrimento. Mas há algo que está ao nosso alcance: a capacidade de estar presente com autenticidade, escuta e abertura.

Neste Dia Mundial da Saúde, reforçamos a importância de dar lugar à saúde mental na infância e na adolescência e de que promover a saúde mental não é agir apenas quando o sofrimento existe, é criar contextos onde seja possível crescer com segurança emocional, com espaço para sentir, com relações que sustentam e com apoio (mais ou menos especializado) quando necessário.

Não deixemos o sofrimento crescer em silêncio. A saúde psicológica merece cuidado.

 
 

@terapiaaoquadrado

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