NÃO SERIA MELHOR SE O LOBO FOSSE SIMPÁTICO?
Andrea Costa, Psicóloga
Tem surgido uma tendência para tornar os contos infantis menos assustadores. Afinal, os dentes do lobo já não são tão aguçados, a bruxa não é assim tão má e os monstros já não são bem monstros.
Numa tentativa de proteger as crianças, procuramos suavizar as histórias: retiramos o medo e tudo aquilo que pode ser assustador, damos uma explicação para todos os comportamentos e garantimos que ninguém faz mal a ninguém.
Mas será que, ao fazê-lo, estamos realmente a protegê-las?
A verdade é que as crianças não descobrem o medo nos contos, mas sim a viver. Têm medo de falhar, de ficar sozinhas, de não serem escolhidas. Sentem raiva, ciúmes, tristeza, inveja e frustração muito antes de conseguirem pôr em palavras aquilo que sentem.
É precisamente por isso que os contos de fadas fazem sentido. Dão forma aos medos, às dúvidas e aos conflitos que fazem parte do crescimento. O lobo, a bruxa, o dragão ou o gigante representam os perigos que existem lá fora e o que sentimos cá dentro. Por exemplo, quando uma criança ouve a história do Capuchinho Vermelho, não está apenas a acompanhar uma aventura. Ela está, através da imaginação, a experimentar o medo, a dúvida e a esperança. Ela descobre que é possível enfrentar aquilo que a assusta.
Não prometem um mundo sem dificuldades. Mostram que há perdas, injustiças e obstáculos, mas também a capacidade para lhes fazer frente. E isso faz toda a diferença. Sem o obstáculo, o herói nunca descobriria a sua coragem e força. Sem o conflito, não haveria crescimento.
O lobo nunca existiu para ensinar as crianças a terem medo. O lobo existe porque o medo já faz parte da infância. Por isso é que ele continua a caminhar ao lado da Capuchinho Vermelho, geração após geração. Não só pela noção do perigo, mas para percebermos que existe a possibilidade de enfrentar a floresta e sair dela.


