HÁ PERDAS QUE DEIXAM PERGUNTAS: COMPREENDER O LUTO APÓS UMA MORTE POR SUICÍDIO
Joana Martinho, Psicóloga
O que torna este luto particularmente difícil?
Quando alguém morre por suicídio, a ausência pode não ser a única coisa que fica. A dor da perda pode vir acompanhada de um conjunto de emoções que podem coexistir (choque, culpa, raiva, confusão, angústia, rejeição…) e de uma necessidade de compreender o que aconteceu.
Uma das particularidades deste tipo de luto é a dificuldade em compreender a morte como resultado de uma decisão intencional. Simultaneamente, os sobreviventes podem assumir responsabilidade pelo que aconteceu ou sentir que falharam na prevenção do sofrimento e do desfecho.
“Mas eu devia ter percebido” — A culpa e a procura de respostas
Podemos compreender que a pessoa estava em sofrimento e, ainda assim, surgirem um conjunto de perguntas na nossa cabeça: Como é que não percebi? Podia ter feito alguma coisa? Porque é que não me pediu ajuda? É natural que a mente procure sinais e construa uma narrativa para o que aconteceu, a verdade é que depois de sabermos o desfecho, o nosso cérebro reorganiza as memórias: alguns acontecimentos passam a parecer sinais óbvios, mesmo que, naquele momento, não tivessem esse significado.
“Porque é que ninguém fala sobre isto?” — O silêncio, o estigma, o isolamento
Às vezes, o silêncio não acontece porque as pessoas não se importam. Acontece porque não sabem como estar perante uma dor tão grande. Com o estigma com que ainda é percecionada esta realidade, muitas pessoas não sabem o que dizer, evitando ou mudando de assunto, o que pode contribuir para o aumento do isolamento de quem fica. É importante criar espaço para a pessoa se sentir ouvida e acolhida:
“Não sei exatamente o que dizer, mas estou aqui.”
“Podes falar comigo sobre ele/ela, se quiseres.”
“Não precisas de passar por isto sozinho/a.”
“Não precisas de encontrar respostas para tudo agora.”
Quando é importante procurar ajuda?
Não existe uma forma única, nem um prazo para fazer o luto, mas não precisamos de esperar que a dor se torne insuportável para pedir ajuda. É importante reconhecer que algumas dores precisam de ser acompanhadas, quando:
A culpa se torna esmagadora;
As circunstâncias da morte são constantemente revividas;
Existe um isolamento crescente;
O sofrimento interfere no funcionamento do dia-a-dia;
A pessoa sente que não consegue falar com ninguém sobre o que aconteceu;
Surgem pensamentos de morte ou de não querer continuar.
Pedir ajuda não significa esquecer, aceitar ou ultrapassar mais depressa. Significa não ter de carregar sozinho/a uma dor que, muitas vezes, é demasiado pesada para compreender e integrar sem apoio.
Talvez algumas perguntas permaneçam sem resposta. Talvez algumas emoções continuem a tornar-se presentes, mas, com tempo, espaço e apoio, é possível que a saudade deixe de ser apenas aquilo que dói e passe também a ser uma forma de manter a pessoa presente.
Porque fazer o luto não é apagar a pessoa que perdemos. É encontrar uma nova forma de a levar connosco, enquanto aprendemos, pouco a pouco, a continuar.
Não precisa de encontrar todas as respostas sozinho/a.
Se precisar de espaço para compreender, sentir e reconstruir, estamos aqui para o/a acompanhar.



