SER CRIANÇA HOJE: ENTRE O MUNDO REAL E O DIGITAL
Inês Santos, Psicóloga
Ser criança hoje não é o mesmo que foi há 10, 20 ou 30 anos. Crescer implica aprender a andar, a falar… e também a navegar na internet.
Entre brincadeiras no chão e vídeos no ecrã, entre histórias contadas pelos pais e conteúdos vistos online, as crianças vivem cada vez mais cedo entre dois mundos: o real e o digital.
Dois mundos… ou apenas um?
Para muitas crianças, a internet não é um “extra”, é parte do seu quotidiano. É onde descobrem novas palavras, aprendem músicas, comunicam, brincam e exploram interesses. Tal como o mundo que conhecemos fora dos ecrãs, também este espaço pode ser rico, desafiante e, por vezes, confuso. Talvez a questão não seja retirar o digital da vida das crianças, mas ajudá-las a integrar estes dois mundos de forma mais saudável e com sentido.
O que muda na infância?
Crescer hoje significa lidar com mais estímulos, mais rapidez e mais informação. Os vídeos sucedem-se em segundos, as respostas estão à distância de um clique e o entretenimento parece não ter fim. Este ritmo influencia a atenção, a forma como as crianças comunicam e até a sua capacidade de esperar. Ainda assim, o digital também traz oportunidades importantes: acesso a novos conhecimentos, contacto com diferentes realidades e estímulo à curiosidade. A infância não está perdida — está diferente, e a precisar de acompanhamento ajustado a esta nova realidade.
O que continua a ser essencial
No meio de tantas mudanças, há algo que permanece: as crianças continuam a precisar de relação. Precisam de adultos disponíveis, de tempo de qualidade, de escuta e de presença genuína. É na relação que aprendem a interpretar o mundo, seja ele físico ou digital. Um vídeo pode ensinar novas palavras, mas é na conversa que essas palavras ganham significado. Um jogo pode entreter, mas é na partilha que se constrói ligação. Nada substitui a presença de um adulto atento.
O papel da família neste equilíbrio
A família não precisa de dominar a tecnologia para apoiar as crianças neste caminho — precisa, sobretudo, de estar presente. Mais do que controlar tudo o que a criança vê, é importante mostrar interesse, fazer perguntas e partilhar momentos. Quando a criança sente que pode falar sobre o que encontra online sem receio, o digital deixa de ser um espaço isolado e passa a ser um espaço acompanhado. E é precisamente aí que começa a verdadeira segurança.
Ser criança, hoje
Ser criança hoje é crescer entre o mundo real e o digital — e tentar combater esta realidade pode afastar-nos mais do que proteger. A internet e as tecnologias não são um inimigo a vencer, mas sim uma parte do mundo que as crianças já habitam.
Talvez o caminho não passe por proibir ou limitar sem compreensão, mas por integrar. Estar por perto, acompanhar, mostrar interesse genuíno e transformar esses momentos em oportunidades de ligação e aprendizagem.
Neste Dia da Criança, mais do que perguntar “como afastar o meu filho da internet?”, podemos perguntar: “como posso estar presente também neste mundo?”. Porque, no fim, a segurança não nasce do controlo — nasce da relação, da proximidade e da confiança que construímos todos os dias.





