O SONO NO VERÃO: COMO AS MUDANÇAS DE ROTINA AFETAM AS CRIANÇAS (E COMO GERI-LAS)
Bruna Mateus, Psicóloga
Com a chegada do verão, alteram-se também muitas das rotinas familiares. Os dias tornam-se mais longos, os horários mais flexíveis e as férias escolares trazem consigo mudanças naturais no quotidiano das crianças, sobretudo ao nível dos hábitos de sono.
Embora esta seja uma época associada ao descanso, ao lazer e à convivência em família, a alteração dos horários pode interferir significativamente na qualidade e regularidade do sono. Esta mudança nem sempre é valorizada, mas pode ter um impacto importante no comportamento, no humor, na atenção e na capacidade de autorregulação emocional. É frequente que, durante o verão, algumas crianças se apresentem mais irritáveis, agitadas, impulsivas ou com maior dificuldade em lidar com frustrações e limites. Em muitos casos, estas alterações não refletem apenas um "mau comportamento", mas podem estar relacionadas com padrões de sono mais desregulados.
Porque é que o verão altera o sono?
Durante o período escolar, as crianças beneficiam, geralmente, de uma rotina mais estruturada, com horários relativamente estáveis para acordar, realizar refeições, frequentar a escola, participar em atividades e deitar-se. Esta previsibilidade favorece a regulação do ritmo biológico e contribui para uma melhor qualidade do sono. Nas férias, é natural que esta organização se torne mais flexível. As crianças tendem a deitar-se mais tarde, a acordar em horários variáveis, a participar em atividades mais estimulantes e, frequentemente, a aumentar o tempo de utilização de ecrãs.
Para além das alterações nas rotinas, existe também uma explicação biológica. O nosso organismo regula o ciclo sono-vigília através do chamado ritmo circadiano, que é fortemente influenciado pela alternância entre luz e escuridão. Durante o verão, os dias mais longos e a maior exposição à luz ao final do dia, tem muita influência na qualidade do sono, levando, naturalmente, a que as crianças sintam sono mais tarde e, consequentemente, durmam menos horas.
Quando o sono é insuficiente, o comportamento pode sofrer alterações
Ao contrário do que acontece nos adultos, a privação de sono nem sempre se manifesta nas crianças através de sonolência. Com maior frequência, traduz-se em alterações do comportamento e da regulação emocional.
Entre os sinais mais comuns encontram-se a irritabilidade, a impulsividade, a agitação motora, as dificuldades de atenção e concentração, a menor tolerância à frustração, a maior sensibilidade emocional e o aumento de conflitos nas interações com os outros.
Estas manifestações tendem a ser particularmente evidentes em crianças que já apresentam dificuldades de autorregulação emocional e comportamental, ansiedade ou Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção. Nestes casos, um sono insuficiente ou de menor qualidade pode intensificar dificuldades previamente existentes, comprometendo a capacidade de regular emoções, controlar impulsos, manter a atenção e responder de forma adaptativa às exigências do quotidiano.
É preciso manter os mesmos horários durante as férias?
As férias devem ser um período de descanso, flexibilidade e experiências diferentes da rotina escolar. O objetivo não passa por manter horários rígidos, mas sim preservar alguma previsibilidade que permita manter o equilíbrio dos ritmos biológicos da criança. Pequenos ajustes nos horários são naturais e fazem parte desta época do ano. Contudo, quando existe uma desorganização marcada e prolongada das rotinas, especialmente ao nível do sono, aumentam as probabilidades de surgirem dificuldades emocionais, comportamentais e de adaptação. Mais do que rigidez, as crianças beneficiam de uma estrutura suficientemente consistente para que continuem a sentir segurança e estabilidade.
Como promover um sono saudável durante o verão?
Manter horários relativamente consistentes: não é necessário que a criança se deite exatamente à mesma hora todos os dias, mas diferenças muito acentuadas dificultam a regulação do relógio biológico.
Criar uma rotina de deitar: a repetição de pequenos rituais antes de dormir ajuda o cérebro a reconhecer que o momento de descanso está próximo. Ler uma história, conversar tranquilamente, ouvir música calma ou reduzir gradualmente os estímulos são estratégias simples, mas eficazes.
Reduzir a utilização de ecrãs: Para além do efeito da luz, o conteúdo visualizado pode aumentar o estado de alerta do cérebro. Jogos, vídeos, redes sociais ou outros conteúdos estimulantes favorecem uma maior ativação cognitiva e emocional, dificultando a transição para um estado de relaxamento necessário ao início do sono.
Equilibrar atividade e descanso: as férias não precisam de ser preenchidas constantemente com atividades. Tal como os adultos, também as crianças necessitam de momentos de pausa. Um excesso de estimulação ao longo do dia pode dificultar o relaxamento necessário para adormecer.
Dormir bem é cuidar do desenvolvimento
O sono desempenha um papel essencial no desenvolvimento cerebral, na consolidação das aprendizagens, na memória, na regulação emocional e na capacidade de adaptação às exigências do dia a dia. Durante o verão, o mais importante não é procurar rotinas perfeitas, mas encontrar um equilíbrio entre a flexibilidade própria das férias e a estrutura de que as crianças continuam a necessitar para se sentirem seguras e reguladas.


