NÃO COMPRE PRENDAS, OFEREÇA TEMPO

Inês Santos , Psicóloga

O Natal aproxima-se e, com ele, a azáfama habitual: listas de prendas, centros comerciais cheios, encomendas de última hora e a pressão de “não faltar nada”. Nesta corrida, facilmente nos esquecemos de perguntar o que realmente faz falta — a nós, às nossas relações e às nossas crianças.

Acreditamos que o Natal pode ser mais do que consumo. Pode ser um tempo de presença, de encontro e de cuidado emocional.

O tempo como verdadeira prenda de Natal

O tempo é uma das poucas coisas que não pode ser embrulhada, mas é, muitas vezes, a prenda mais desejada. Estar disponível, ouvir com atenção, partilhar uma refeição sem pressa, caminhar juntos numa tarde fria de dezembro — tudo isto comunica amor, segurança e pertença. Ao contrário de um objeto, o tempo não se acumula. Oferecê-lo é uma escolha consciente, especialmente numa época em que tudo parece urgente e acelerado.

Crianças que recebem muito, mas pedem mais

No Natal, esta lógica torna-se ainda mais evidente. Muitas crianças recebem inúmeras prendas, brinquedos novos, estímulos constantes — e, poucos dias depois, parecem aborrecidas, inquietas, incapazes de se entreter com o que têm. Quando tudo está disponível, nada é suficientemente interessante. Mais do que falta de brinquedos, muitas vezes o que existe é falta de presença. As crianças não precisam de mais coisas; precisam de adultos que estejam disponíveis para estar, brincar e partilhar tempo com elas.

Brincar junto é criar memória emocional

Brincar é uma forma profunda de vínculo. É no brincar que a criança se sente vista, ouvida e importante. Quando um adulto se senta no chão, entra na brincadeira, segue a imaginação da criança e abdica do telemóvel e das tarefas, está a oferecer algo essencial: segurança emocional. Não é preciso brinquedos caros ou atividades planeadas. Muitas vezes, o que fica na memória das crianças não é o que receberam, mas com quem estiveram.

Quando as prendas ocupam o lugar da presença

No Natal, as prendas podem tornar-se uma tentativa de compensar ausências: menos tempo ao longo do ano, mais embrulhos na noite de consoada. Mas nenhuma prenda substitui um adulto emocionalmente disponível. Oferecer brinquedos não é um problema. O problema surge quando o objeto ocupa o lugar da relação.

Um Natal com menos coisas e mais tempo

Talvez este Natal seja uma oportunidade para desacelerar, reduzir excessos e recuperar o essencial. Oferecer tempo é escolher estar — mesmo quando cansa, mesmo quando não é perfeito, mesmo quando não sabemos exatamente como brincar. Acreditamos que cuidar é estar. E, no Natal, estar pode ser a maior prenda de todas.

Para refletir neste Natal

Que memórias queremos que os nossos filhos levem desta época?
O que é que oferecemos quando estamos verdadeiramente presentes?
Quantas das prendas podem ser substituídas por tempo partilhado?
Como seria um Natal com menos objetos e mais relação?
E, no meio de tudo isto, onde estamos nós — disponíveis, apressados ou verdadeiramente presentes?

Talvez a resposta não caiba num embrulho.

 
 

@terapiaaoquadrado

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