AS MARCAS INVISÍVEIS DOS MAUS-TRATOS: O QUE FICOU POR CUIDAR
Andrea Costa, Psicóloga
Nem todas as feridas deixam marcas visíveis. Algumas instalam-se em silêncio, numa zona da experiência onde ainda não existem palavras. E, por isso, permanecem.
Na infância, não nascemos a saber lidar com o que sentimos. Precisamos de alguém que nos ajude, que nos proteja e que nos acolha. É nessa relação que começamos a construir a capacidade de pensar sobre aquilo que vivemos.
Quando este encontro falha, por ausência, rejeição, negligência ou mesmo violência, algo fica por fazer. Certas experiências não chegam a ser compreendidas, nem transformadas em algo que possa ser pensado. Ficam “em bruto”, como sensações difíceis de explicar, mas que continuam presentes.
São aquilo a que podemos chamar memórias sem palavras.
Não aparecem como lembranças claras, com início, meio e fim. Aparecem de outras formas: numa ansiedade que surge sem aviso, num desconforto difícil de nomear, numa reação que parece maior do que a situação. Às vezes, no corpo. Outras vezes, nas relações.
É como se algo antigo continuasse a acontecer — mas sem ser reconhecido como passado. Aquilo que não pôde ser pensado tende a repetir-se — não como recordação, mas como experiência. Nos padrões que se repetem, nas relações que doem de forma semelhante, na dificuldade em confiar, na autonomia ou até em sentir-se seguro com o outro.
E há um aspeto importante: não é só o que aconteceu que deixa marcas.
É também aquilo que faltou. A falta de um olhar que reconhece. De uma presença que acalma. De alguém que nos ajuda a organizar o mundo interno.
Quando esse “outro” está emocionalmente ausente — mesmo que fisicamente presente — pode instalar-se um vazio difícil de explicar. Uma sensação de desconexão, de falta de sentido, ou de não saber bem o que se sente. Como se faltassem peças importantes na experiência emocional.
Crescer assim pode deixar o adulto dividido: por um lado, precisa do outro; por outro, teme o que a relação pode trazer — rejeição, abandono, perda, invasão. Aproximar-se pode ser tão necessário quanto assustador.
O que a infância calou, o adulto carrega. Mas não como uma história clara. Carrega no corpo, nas emoções, nas formas de se relacionar — muitas vezes sem saber exatamente porquê.
Ainda assim, há algo essencial: aquilo que não pôde ser compreendido no passado pode começar a ganhar sentido no presente. Quando existe um espaço onde é possível parar, sentir e, sobretudo, colocar em palavras aquilo que antes era apenas vivido, algo começa a transformar-se. Aos poucos, o que era confuso pode tornar-se mais claro. O que era apenas reação pode ganhar significado.
É um processo gradual. E, muitas vezes, acontece na relação com alguém que escuta, que sustenta e que ajuda a pensar — exatamente aquilo que, em algum momento, faltou.




